Essa é a última semana da Blogagem Coletiva Sentimentos, proposta pela querida Glorinha do delicioso Café com Bolo. O tema escolhido para encerrar nossa blogagem foi o perdão; um grande tema, que abre para nós muitas possibilidades de reflexão.
O perdão está diretamente ligado ao arrependimento. Quando perdoamos alguém, é porque esse alguém, supostamente, se arrependeu de ter feito algo que, de alguma forma nos feriu e assim também é, quando alguém nos perdoa. Mas o perdão envolve outro sentimento que nos dias atuais muito se prega e pouco se pratica: a humilhdade; na verdade, esse é um sentimento cujo significado anda sendo deturpado.
Não consigo falar em perdão sem abordar essas questões, como arrependimento, humildade e confiança.
Tenho visto muitos bandidos, ladrões mesmo, marginais, assassinos cruéis na televisão, se dizendo arrependidos e até pedindo "perdão" aos familiares de suas vítimas, mostrando-se tão "humildes" que são até capazes de se fazerem acreditados por muitos, mas será que isso é realmente sinônimo de arrependimento? É muito fácil se dizer arrependido e pedir perdão quando algo saiu errado, quando seus planos foram frustrados e eles foram pegos. O verdadeiro arrependimento é aquele que vem espontâneamente, que vem de dentro para fora da pessoa, sem interferências de fatos externos, é aquele que, pressupõe-se, estejam ligados aos princípios nobres do ser humano, é quando as pessoas reconhecem seus erros por conta própria e deixam, realmente, de praticá-los. Se dizer arrependido e continuar praticando os tais erros é ser, para dizer o mínimo, cínico, "cara de pau".
Somos seres humanos, somos imperfeitos e portanto, somos passíveis de erros, de falhas que muitas vezes causam estragos e dores em alguém, que não somos capazes de imaginar as feridas que abrimos no peito dessas pessoas. Porém, não somos seres irracionais, temos o privilégio de sermos seres pensantes e acredito que muitas dores poderão ser evitadas se nos colocarmos no lugar do outro, se avaliarmos, com antecedência, as consequências dos nossos atos, os estragos poderão ser minimizados ou até mesmo evitados.
Perodar, para mim, não significa dar o outro lado da face, infinitamente, para o outro nos bater, não significa manter relações cujos laços foram rompidos de modo irreparável. Claro que não sou nenhuma santa, não quero e nem tenho a pretensão de sê-lo, mas não costumo guardar mágoas por muito tempo, acredito que elas, realmente, fazem mal, não para quem magoou e sim para quem as guardou .
Já fui perdoada muitas vezes e já perdoei outras tantas, são muitas as histórias de perdão em minha vida e eu poderia ficar aqui digitando o dia inteiro, mas vou contar apenas uma delas, que vem de encontro ao que acabei de falar, que perdoar não significa reatar laços rompidos por falta de confiança. Senta aí que lá vem estória,rs.
Eu estava grávida da minha segunda menina quando fui morar em uma pequena cidade do interior (minúscula mesmo,rs). Lá, eu me sentia sozinha, desamparada, carente e não consegui fazer muitos amigos, eu tinha uma cabeça moderna demais para aquele mundo tacanho (sem querer ser pretensiosa nem preconceituosa).
Logo, conheci uma moça da minha idade, que também estava grávida (da sua primeira filha) e suas idéias pareciam estar em sintonia com as minhas. Não demorou muito para que fizéssemos amizade e logo que demos à luz as nossas meninas, os laços de amizade ficaram ainda mais estreitos. Passamos a frequentar a casa uma da outra, a trocar experiências sobre nossos bebês, íamos juntas à determinada praça, diariamente, levar nossas filhas para tomar sol e brincar, compartilhavamos um café todas as tarde em minha casa, confidenciávamos nossos segredos mais íntimos.
Pouco tempo depois, ela foi abandonada pelo marido que a maltratava constantemente, chegando até a estourar um dos seus tímpanos, com um tapa. Fiquei demasiadamente comovida com aquela situação da minha suposta amiga, e simplesmente, resolvi assumi-la como a uma irmã; assim passei a ser o seu suporte psicológico, emocional e financeiro, já que o marido da mesma "se mandou", voltou para seu estado de origem e nunca enviou um centavo sequer para a filha deles, e já que a mãe da minha suposta amiga era uma senhora de idade, que lutava com dificuldades para ganhar o pão de cada dia.
Praticamente adotei a menina. Tudo que eu comprava para as minhas filhas, eu comprava para ela também, desde brinquedos até roupas, que eu chegava ao cúmulo de comprar iguais, para a minha caçula e para a outra, que tem mesma idade. Passei a levá-la ao mesmo pediatra que cuidava da saúde das minhas pequenas, comprava todos os remédios que o médico lhe prescrevia e olha que não eram poucos, nem eram remédios baratos, pois ela era bem doentinha, diferente das minhas.
Após, uns três, quatro anos, talvez, diante de algumas atitudes dessa "amiga", eu comecei a me dar conta que a minha amizade não era correspondida como eu pensava, comecei a achar que estava sendo usada, explorada financeiramente e fui ter uma conversa com ela, que prontamente me pediu perdão pelas suas atitudes que me levaram a pensar dessa forma. Eu, naturalmente, acreditei na mesma e a perdoei, pela primeira vez. Começava ali, uma história de vários perdões.
Tempos depois, ela se converteu a uma determinada religião, acho que lá recebia alguma ajuda financeira, pois simplesmente se afastou de mim sem dar nehuma explicação, como se eu fosse uma má influência para ela e sua filha. Isso aconteceu duas vezes e nas duas vezes, ela se decepcionou com as escolhas, voltou pedindo perdão por ter desprezado uma amizade "tão bonita". Nas duas vezes, eu perdoei e tudo voltou a ser como sempre fora.
Depois de muitos anos, ela já estava trabalhando e em uma viagem que fizemos juntas, usou o meu cartão de crédito para fazer compras em algumas lojas de grife, cujo valor comprado foi altíssimo, mas eu acreditei que ela me pagaria, jamis imaginei que ela me daria um tremendo calote como aquele, porém....Foi exatamente o que aconteceu. Tive que parcelar o débito em 12 vezes, para não ter meu nome incluído no cadastro de maus pagadores, até porque, eu não estava passando por um bom momento financeiro. Fiquei muito magoada porém, mais uma vez a perdoei, considerando que ela não tinha maturidade suficiente para lidar com dinheiro.
Lembram quando falei do tímpano que que o marido da mesma havia estourado com um tapa? Pois é, ela fez a reconstituição; e advinhem quem deu todo suporte necessário? Sim. Eu mesma, que além de contribuir financeiramente, larguei mãe, filhas, marido e pedi licença do emprego, por um período, para cuidar dela, até que a criatura se recuperasse.
Anos mais tarde fiquei muito doente, precisei fazer uma cirugia de grande porte e claro que eu esperava dela um pouco de apoio moral, um ombro amigo, até porque eu estava muito, muito triste com certos acontecimentos da minha vida naquela época, além da doença, mas o que recebi dessa pessoa foi um desprezo total. Ela não tinha tempo (estava envolvida com um novo namorado), não tinha paciência e muito menos disposição para me ouvir ou me acompanhar durante a cirurgia, nem tão pouco para me visitar durante o pós-operatório. Voltei para casa depois de um mês, sem receber sequer um telefonema da tal "amiga". Ela só apareceu em minha casa, 15 dias depois de eu ter voltado, ficou durante 20 minutos aproximadamente (não mais do que isso) e quando comentei o quanto eu estava triste com a sua atitude ela disparou o seguinte comentário, que explodiu como uma bomba sobre minha cabeça.
-Tenho mais o que fazer do que ficar paparicando você. Foi que ela disse.
Fiquei atônita e chorei, chorei muito naquele instante, chorei e lamentei quanto fui ingênua, o quanto fui boba.
Eu soube depois, por diversas fontes, que confidências que lhe fiz, foram espalhadas ao vento.
Ela teve mais um filho com aquele namorado do qual falei, viveu com ele por um tempo e não me procurou mais. Depois, foi abandonada por ele também, e sozinha, muito carente, voltou a me procurar, dizendo que havia errado bastante comigo e queria consertar as coisas, para que a nossa amizade voltasse a ser o que um dia fora. Claro que eu não quis mais me relacionar com ela, risquei seu nome da minha lista de amigos, sem no entanto, me tornar sua inimiga. Não lhe desejo o mal, quero que fique bem, porém, que seja longe de mim. Se eu a perdoei? Sim. Tenho o coração leve, a consciência tranquila de quem perdoa.
Com a maturidade compreendi que tudo na vida tem limite, até mesmo o perdão.
* P.S- Quero agradecer a nossa amiga Glorinha por ter nos dado a oportunidade de vasculhar as gavetas de nossas mentes e compartilhar fatos, exeriências de nossas vidas, que de alguma maneira, talvez possam servir de reflexão para outras pessoas e muitas vezes, para nós mesmos.
Como ela mesma, a Glorinha, costuma dizer, "foi uma verdadeira catarse"!
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Créditos: Imagens daqui